Alternativa Religiosa, Candomblé

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(…) O vínculo estreito do povo-de-santo com a natureza, e o estreito vínculo destes com as divindades, fazem do candomblé uma religião imanente, longe das abstrações metafísicas das religiões transcendentais. (…) a religião comunitária do candomblé representa uma alternativa viável, representa uma volta simbólica à natureza, representa uma relação íntima e corporal com os “deuses” (orixás), representam uma vivência coletiva, em sociedade, uma potencialização da sexualidade humana e a valorização do feminino num mundo predominantemente masculino. Assim, esses elementos estruturantes do candomblé apontam respostas concretas para a crise dos modelos ocidentais.

# Eduardo David de Oliveira in “Cosmovisão Africana no Brasil”, p. 98

A possessão pela divindade

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Diversamente do que acontece nos demais cultos e religiões existentes no Brasil, a divindade se apossa do crente, nos cultos negros, servindo-se dela como instrumento para a sua comunicação com os mortais. A possessão também se dá no espiritismo e na pajelança, mas em condições diferentes: no espiritismo são os mortos, e não as divindades, que se incorporam nos crentes; na pajelança, embora sejam as divindades dos rios e das florestas que se apresentam, somente o pajé, e não os crentes em geral, é possuído por elas. Assim, não é o fenômeno da possessão, por si mesmo, que caracteriza os cultos de origem africana, mas a circunstãncia de ser a divindade o agente da possessão. Essa a característica principal desses cultos.

# Edison Carneiro, Os Candomblés da Bahia

O Colectivo e o Religioso

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Uma das principais características das sociedades tradicionais é o seu carácter colectivo-dirigido. Nas sociedades deste tipo – típicas da pré-modernidade e reconstituídas pelos regimes ditatoriais – o sujeito não assume a sua individualidade, antes ele existe na medida em que o colectivo tem valor, a sua existência é parte constituinte de uma célula maior, a sociedade a que pertence. Essa assimilação do individual pelo colectivo é característico das comunidades religiosas. Nelas, o sujeito é uma microcélula do todo, está orientado de acordo com as suas funções e competências, definidas pela hierarquização das tarefas e responsabilidades. No seio das comunidades do Candomblé, esse colectivo joga também com a individualidade. O colectivo é a célula maior, a estrutura central, que dá coerência às individualidades que vai semi-assimilando, uma vez que os cargos são parte da existência colectiva e individual. Ogans, Ajoyes, etc., são cargos colectivos que garantem a preservação do individual. O colectivo, contudo, é a existência fundamental, é o agregador de toda a sociedade que se constitui.

Cordão de Ouro, filme

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O trecho que se segue faz parte do filme «Cordão de Ouro» e espelha com simplicidade a mescla entre religião e capoeira, entre simbologia Bantu e a arte de luta africana, a originalidade da capoeira, na sua prática sincrética com a crença candomblecista, em particular com a tradição dos candomblés congo-angola, bem como com a crença umbandista. Embora parte daquilo que é visionada não corresponda à realidade (porque as divindades não dançam na roda da capoeira) é possível entender um pouco da fé popular africana e do seu modo de estar na capoeira tradicional.

O termo Candomblé

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A designação «Candomblé» tem sido alvo de inúmeras reflexões linguísticas, permanecendo o seu significado mais complexo do que o seu significante. Segundo o “Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea”, ‘Candomblé’ resulta do vocábulo quimbundo «Ka» e do yorùbá «ilê», designando o primeiro «batuque» e o segundo «casa». Todavia, fica o vazio do «ndomb» na formação do vernáculo «Candomblé». É por essa razão que optamos por aceitar outras duas interpretações como mais próximas do real. A primeira, separa «Ka» e «domblé» e tem por interpretação “o costume do povo negro”. A segunda, «Ká-n-dón-id-é» / «Ká-n-domb-ed-e» / «Ka-n-domb-el-e», designando sempre o acto de oração e louvação, sendo estes substantivos derivados do «Ku-dom-ba»: orar, invocar.

Todavia, o termo «Candomblé» passou a designar muito mais do que o que encerram as suas fronteiras linguísticas. «Candomblé» designa as tradições religiosas dos diversos povos africanos que chegaram ao território brasileiro através do comércio de escravos. Os cultos dispersos de divindades africanas, apelidadas de Orixás, Voduns ou Inkices, foram reunidos em panteões, e as nossas lógicas rituais necessitando de um nome foram internamente designadas por «Candomblé». Para as autoridades, «Candomblé» representou uma festa de batucada africana, cujos contornos populares possuíam um carácter religioso-pagão. Isso significava a inclusão de cultos como Batuque ou Xangô, diferentes expressões religiosas africanas. Com a cadência do tempo «Candomblé» passou a designar o culto às divindades africanas nas ‘nações’ religiosas Congo, Angola, Jeje (e suas derivações) e nagô-Ketu.

Religiões, Seitas e Candomblé

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1. Religião deriva do latim “re-ligare” traduzindo-se por “religação” remete-nos para o reencontro com o divino, o colar de linhas quebradas entre o ser divino e supremo e o mortal, fruto da sua criação. Nesse sentido, religião engloba todas as práticas humanas voltadas para o transcendental que promovam a reunião do crente com o universo do sagrado. As religiões definem agrupamentos humanos e conferem unicidade às culturas.

2. O termo Seita significa “facção”, “divisão” e refere-se a divisões que ocorrem no seio de uma determinada religião, como se fala na Bíblia das seitas judaicas. Seita, nada tem a ver com crença demoníaca, remetendo antes, isso sim, para um caminho alternativo, para uma nova forma de manifestação religiosa que advém de uma religião professada.

3. O Candomblé é uma religião e não uma seita. Ao contrário do que muitas vezes se procura veicular não se trata de uma crença ou prática religiosa afro-cristã (já para não falar que apelidar o Candomblé de seita demoníaca constitui um atentado ao bom-nome da religião e uma tenta de difamação barata). O sincretismo religioso enquanto mecanismo de preservação da religião face à opressão esclavagista empurrou o Candomblé para a definição de seita afro-cristã. Todavia, o Candomblé não deriva em nada do Cristianismo. Trata-se de uma religião formada em território brasileiro que deriva de um conjunto de práticas religiosas de diversas etnias africanas. Não é resultado de cisão de uma outra religião, não é uma manifestação cristã desenvolvida pelos escravos africanos, nem tão pouco se trata de uma crença baseada no Anti-Cristo. A veiculação de essas ideias não só promovem uma descrença e um descrédito face à religião, como ainda erguem barreiras ao diálogo inter-religioso. O Candomblé é uma religião e não uma seita.

√ Ìwà Pęlę – o bom carácter

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Para o povo Yorubá, o carácter do sujeito é de uma importância extrema, pois ditará a sua socialização e actuação social. O “bom carácter” é traduzido na língua yorubá por Ìwà Pęlę. O bom carácter significa uma postura individual de cordialidade com os demais indivíduos do todo social. A paz interna é um valor extremamente importante para o povo Yorubá. Assim, Ìwà Pęlę é o mais valorizado valor ético-moral, adquirindo ainda um claro valor religioso, ao significar uma postura verdadeira, sincera e cordial com o plano terreno e o plano do sagrado.

Na mitologia de Ifà, Ìwà é uma mulher de rara beleza que, depois de se divorciar de vários deuses, acabou por casar com Orúnmílà. Contudo, mais nenhuma virtude possuía do que a sua beleza. Falava demais, era preguiça e irresponsável. Orúnmílà acabou por se cansar de Ìwà e mandou-a embora. Depois disso, Orúnmílà, sentiu a falta de Ìwà, compreendendo que não poderia viver sem ela. Essa dúbia atitude levou-o a perder a sua capacidade divinatória e com isso o respeito geral. Um dia Orúnmílà vestiu-se de Egúngún e saiu à procura de Ìwà. Foi de porta em porta dos 16 Odu de Ifà, cantando na porta de cada um:

 

“Grande Sacerdote de Ifá de Ajeró,

Adivinho de Ajeró,

Onde viu Ìwà, diga-me,

É Ìwà que procuro.

Se você tem dinheiro mas não tem Ìwà,

O dinheiro não é seu;

Ìwà é a pessoa que eu procuro.

 

Se alguém tem filhos mas não tem Ìwà,

As crianças pertencem a outra pessoa;

Ìwà, Ìwà é quem nós procuramos…

 

Se temos uma casa mas não temos Ìwà,

A casa não é nossa, é de outra pessoa.

Ìwà, Ìwà é o que procuramos.

Se você tem roupas mas tem falta de Ìwà,

As roupas pertencem a outra pessoa.

Ìwà, Ìwà é o que procuramos.

 

Todas as coisas boas da vida que um homem possui,

Se ele perder Ìwà, elas passam a pertencer a outra pessoa.

Ìwà, é o que estamos à procura.”

 

Depois de muito procurar, Orúnmílà encontrou Ìwà casada com Olójo, ao cantar na porta deste. Olójo abriu a porta mas recusou entregar-lhe Ìwà. Na briga por Ìwà, Orúmílà bateu em Olójo com uma perna de cabra que havia sacrificado antes de partir em busca de Ìwà. O impacto atirou Olójo para longe. Orúnmílà levou Ìwà para casa.

 

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Daqui se conclui que os homens devem cultivar o seu carácter como cuidam das suas mulheres, pois só ela representa a dualidade da vida (amor e beleza versus fraqueza, falsidade e deslealdade). Manter a sua mulher do mesmo modo que se mantém o bom carácter. O folclore diz que as mulheres podem ser bruxas e perigosas, mas que a sociedade não pode funcionar sem elas. Do mesmo modo pode ser complicado manter o bom carácter, mas a verdadeira felicidade não existe sem ele, por isso o homem deve estar disposto a enfrentar situações difíceis (ègbin = sujas). A canção, ao comparar Ìwà a bens materiais, está a dizer-nos que possuir bens sem tem carácter não tem valor, pois perderá esses bens para alguém com Ìwà Pęlę.