Poesia Afro-Brasileira

As expressões “literatura negra” e literatura “afro-brasileira” são empregadas para nomear alguns tipos de produções artístico-literárias que podem estar relacionadas tanto com a cor da pele de quem as produz, quanto com o fato de nelas serem trabalhadas, com maior intensidade, questões que dizem respeito à presença de tradições africanas disseminadas na cultura brasileira. As alterações que as tradições africanas sofreram no Brasil, estão presentes na capoeira, no candomblé, na macumba, no congado e em outros rituais preservados pelo povo. A literatura também assume essas tradições assumindo-as, particularmente, como estratégias de reinvenção e modulação de forças que se exibem em diferentes na cena do texto ou na linguagem que o produz.

# Maria Nazareth Soares Fonseca [link]

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a vida no morro

A vida no Morro do Capa Negro era difícil e dura. Aqueles homens todos trabalhavam muito, alguns no cais, carregando e descarregando navios, ou conduzindo malas de viajantes, outros em fábricas distantes e em ofícios pobres: sapateiro, alfaiate, barbeiro. Negras vendiam arroz-doce, mungunzá, sarapatel, acarajé, nas ruas tortuosas da cidade, negras lavavam roupas, negras eram cozinheiras em casas ricas dos bairros chiques. Muitos dos garotos trabalhavam também. Eram engraxates, levavam recados, vendiam jornais. (…) Os mais se estendiam pelas ladeiras do morro em brigas, correrias, brincadeiras. (…) Já sabiam do seu destino desde cedo: cresceriam e iriam para o cais onde ficavam curvados sob o peso dos sacos cheios de cacau, ou ganhariam a vida nas fábricas enormes. E não se revoltavam porque há muitos anos vinha sendo assim: os meninos das ruas bonitas e arborizadas iam ser médicos, advogados, engenheiros, comerciantes, homens ricos. E eles iam ser criados destes homens (…) no morro onde morava tanto negro, tanto mulato, havia a tradição da escravidão ao senhor branco e rico. E essa era a única tradição. Porque a da liberdade nas florestas da África já haviam esquecido e raros a recordavam, e esses raros eram exterminados ou perseguidos.

# Trecho de «Jubiabá» de Jorge Amado