Relato da Escravatura

“Arrancado a um estado de inocência e liberdade de forma tão cruel e bárbara, e assim remetido para um estado de horror e escravatura: eis uma situação de abandono que é mais fácil imaginar do que descrever”.

Ottobah Cugoano, escravo sobrevivente, 1787

Anúncios

O Complexo Identitário Yorùbá-Nàgó (3)

Enquanto os africanos de origem Bantu (Congo e Angola), trazidos para o Brasil nos primeiros anos da colonização, foram distribuídos pelas plantações dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo e Minas Gerais, os negros Fon (Jeje) e Yorùbá-Nàgó chegaram no último período da escravatura e foram concentrados nas zonas urbanas em apogeu, nos estados da Bahia e Pernambuco, em particular nas capitais de Salvador e Recife. Estes grupos Nàgó começaram a estabelecer contato, aproximados pela cultura, pela língua e sobretudo pela religião. Desta forma foi possível aos negros Nàgó preservarem a sua própria identidade, ao contrários dos negros Bantu. Desta forma, a Bahia, no século XIX, foi palco da implantação e reformulação do complexo identitário Yorùbá-Nàgó, agora condensado espacialmente e em contato com nova realidade cultural. As comunidades-terreiros (egbé-àse ou ilé-àse) são o reminiscente da África e mantém viva a herança através do culto aos Òrìsà e aos ancestrais ilustres, os ègun. Em torno do espaço sagrado foram-se erguendo pequenas casas, construídas por gente ligada à egbé, numa reedificação do compound nigeriano, ou em yorùbá um agbo-ilé, um aglomerado de casas.

O Complexo Identitário Yorùbá-Nàgó (2)

O estabelecimento Yorùbá ao sul do Daomé parece ter ocorrido por volta do século XVI, embora ele seja muito anterior no centro do território daomeano, por volta do século XII, de acordo com o estabelecimento dos Kétu, sendo que o quadragésimo Alákétu terá reinado por volta de 1780 do calendário ocidental. O termo Nàgó passou a designar, com o tempo, todos os Yorùbá dos diversos reinos e adversários do Leste e Nordeste, sem distinção entre os de Abéòkúta, Egba, Egbado, Kétu ou Sábé. Há quem entenda o termo nàgó como um termo pejorativo de origem fon, traduzível por “sujeira, lixo, etc.”. A possibilidade deste termo não é de colocar de lado mas também não poderá ser assumida por correcta ou única, apesar de os Yorùbá de Òyó se referirem aos daomeanos como “jeje”, estrangeiros, também num sentido nem sempre cordial. Mercier indica que os Nàgó são “…agrupamentos Yorùbá, no círculo daomeano de Porto Novo e de regiões adjacentes da colônia e da divisão de Illare, que se chamam a eles mesmos de Ànàgó e conhecem unicamente esse nome…”. Seja como for, o termo Ànàgónu ou Nàgó, que se referia originalmente aos Yorùbá de Ifè, foi usado de forma extensiva pelos Fon e pela administração francesa a todos os povos Yorùbá, sendo o termo herdado pelos Yorùbá da Bahia, independentemente da sua origem geográfica. Ou seja, Nàgó e Yorùbá passaram a designar uma mesma realidade étnica que saiu de Ifè e migrou pelo vasto território envolvente a leste, nordeste e a sul.

O Complexo Identitário Yorùbá-Nàgó

A complexidade das identidades Yorùbá no próprio território que compõe o sul da Nigéria, o Togo e o Benim, encontram similitudes a partir da própria concepção mitológica da sua origem. Para todos os Yorùbá, de lés a lés do território, a sua descendência deriva de Odùduwà, progenitor(a) mitológico(a) fundador(a) de Ilé-Ifè, cidade-santa, quer se tratem de àrà-kétu, àrà-sabe, àrà-òyó, àrà-ègbá, àrà-ègbado, àrà-ìjesà, àrà-ìjebù, etc. Segundo Abraham os ànàgó constituem um grupo de Yorùbá saído de Ifè que fundou diversos povoados na província de Abéòkuta. São falantes do Yorùbá de tipo èyò, falado no antigo reino Òyó e existem outros grupos em Ifónyìn e Ilaàró.

Os Yorùbá do Dahomé, de onde descendem a maior parte dos nàgó da Bahia, são também oriundos de Ilé-Ifè, e são conhecidos por nàgó, nàgónu, ànàgónu. O sufixo nu, de língua fon, significa “pessoa”. Por arrastamento, todos os sacerdotes e sacerdotisas dos vòdún são chamados ali de ànàgónu. O próprio termo Yorùbá parece ser recente, uma vez que antes de 1853 o termo Yorùbá não estava difundido nem em voga, limitando-se a caracterizar os habitantes do reino de Òyó.

O Colectivo e o Religioso

Uma das principais características das sociedades tradicionais é o seu carácter colectivo-dirigido. Nas sociedades deste tipo – típicas da pré-modernidade e reconstituídas pelos regimes ditatoriais – o sujeito não assume a sua individualidade, antes ele existe na medida em que o colectivo tem valor, a sua existência é parte constituinte de uma célula maior, a sociedade a que pertence. Essa assimilação do individual pelo colectivo é característico das comunidades religiosas. Nelas, o sujeito é uma microcélula do todo, está orientado de acordo com as suas funções e competências, definidas pela hierarquização das tarefas e responsabilidades. No seio das comunidades do Candomblé, esse colectivo joga também com a individualidade. O colectivo é a célula maior, a estrutura central, que dá coerência às individualidades que vai semi-assimilando, uma vez que os cargos são parte da existência colectiva e individual. Ogans, Ajoyes, etc., são cargos colectivos que garantem a preservação do individual. O colectivo, contudo, é a existência fundamental, é o agregador de toda a sociedade que se constitui.