Lundu, a herança musical

Standard

“Iaiá você quer morrer
Quando morrer, morramos juntos
Que eu quero ver como cabem
Numa cova dois defuntos”
(Isto É Bom, lundu de Xisto Bahia)

Lundu ou Lundum é uma dança de origem africana bastante popular na Lisboa do século XVI, tendo sido, por volta de 1780, apelidada de “dança silenciosa e indecente”. Em finais do século XVIII, o Lundu apresenta uma faceta de canção acompanhada à viola. Conheceu o seu apogeu nos finais do século XIX, particularmente entre as leites cariocas, altura em que se fundiu com o tango e a polca dando origem ao maxixe. A passagem do Lundu das comunidades africanas e afro-descendentes para as classes altas brasileiras originou uma alteração estética e conceptual da dança, perdendo o seu fulgor sensual e se tornando numa dança alegre e brejeira.

No Brasil, o Lundu é tido como a primeira manifestação cultural musical afro-brasileira, tendo surgido antes mesmo do semba ou samba, sob a forma de uma dança sensual de origem africana. Em 1798, é publicada a colectânea «Viola de Lereno», um conjunto de composições de Domingos Caldas Barbosa, onde o lundu é referido como género musical. A sua origem étnica é atribuída aos negros Bantu, Angola e Congo, primeiros negros chegados ao Brasil através do sistema escravocrata. Por essa altura o Lundu possuia uma cadência física semelhante ao kizomba actual.

No trajecto directo Angola-Brasil, o Lundu não perdeu a sua feição africana, sensual e lasciva, sendo até ao século XVIII catalogada junto das demais manifestações culturais musicais negras sob o nome de «batuque». Ao contrário, tendo passado por Lisboa, o Lundu foi pulido e europeizado, misturando-se com os folguedos portugueses e adquirindo uma estética suavizada, por forma a entrar nos ambientes selectivos da corte. Escreveu Caldas Barbosa:

“Eu vi correndo hoje o Tejo/Vinha soberbo e vaidoso/Só por ter nas suas margens/O meigo Lundum gostoso/Que lindas voltas que fez/Estendido pela praia/Queria beijar-lhe os pés/Se o Lundum bem conhecera/Quem o havia cá dançar/De gosto mesmo morrera/Sem poder nunca chegar/Ai rum rum/Vence fandangos e gigas/A chulice do Lundum”.

O lundu-dança continuou a ser praticado por negros e mestiços enquanto o lundu-canção passou a interessar aos compositores de escola e músicos de teatro, onde era feito para ser dançado e cantado com letras engraçadas e maliciosas. Já em fins do século XIX, esse aspecto foi intensamente explorado por Laurindo Rabelo, o poeta Lagartixa que, acompanhando-se ao violão, depois de determinada hora improvisava com facilidade lundus especiais ouvidos só por homens.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s