O «Povo-de-santo»

Povo-de-santo» é uma denominação nascida no Novo Mundo não se sabe exactamente quando, que parece ser uma adaptação do termo Yorubá Egbé Orixá, um género de comunidade ou grupo religioso do Orixá.

A estrutura organizacional quer social, quer geográfica, quer mental do «povo-de-santo» em África, é uma noção fechada, correspondendo por um lado a um grupo familiar organizado em torno de um Olorixá, um sacerdote patriarca do agregado familiar, e por outro lado a uma comunidade maior que o agregado familiar tradicionalmente nómada, igualmente correspondendo a uma vila ou aldeia, organizada em torno de um ou mais Olorixá, responsáveis por um Orixá comum ou por um diverso leque destes de acordo com a origem dos mesmos Olorixás.

Aquando da leva de escravos para o Brasil como mão-de-obra, os negros foram agrupados sob a égide da Igreja, mas foi nos Terreiros de Candomblé que esse agrupamento se deu na essência da palavra, enquanto ajuntamento real de negros com características comuns. Nasce, assim, uma diferente simbologia de «povo-de-santo», associada agora, à união de homens e mulheres que, unidos por laços sentimentais e sociais entre si, encontram nos Ilê Axé o local simbólico e idílico de um regresso, embora por meros instantes, à África Antiga, à terra dos ancestrais divinizados. É o local onde pessoas com valores e história comuns se reunem e cultuam os Deuses Antigos.

A partir da década de sessenta, a definição de «povo-de-santo» surge agora como um conjunto heterogéneo de pessoas que sem terem valores e culturas background comuns, correlacionam-se pelo móbil do chamamento comum de uma tradição religiosa cativante, que se reúnem num local comum, denominado como Terreiro ou Roça de Candomblé, sob a autoridade religiosa de um «pai» ou «mãe-de-santo». Esta definição mantém-se até aos dias de hoje.

Creio que num futuro qualquer, o «povo-de-santo» abrangerá por um lado comunidades universais sem nada em comum, em busca de um caminho espiritual e de encontro com o divino, e por outro lado, será uma comunidade tão fechada será um mundo diferente num diferente mundo exterior.

Segundo reporta Kitalamin, na sua obra Os Orixás e o segredo da vida, o sistema de comportamentos normativos do «povo-de-santo» é semelhante ao comportamento da corte régia africana, ou até mesmo à mítica corte do rei-sol, Louis XIV em Versailles. Toda a corte régia é movida sob o comando da voz do monarca, do rei ou raínha, numa clara descendência posturica, os reis e raínhas dos Terreiros de Candomblé, são vistos como pessoas vaidosas, de nariz impinado, com postura fidalga e elegante. Isto porque, mesmo o Babalorixá ou Iyálorixá de pigmentação aclarada, é por seu cargo, um descendente dos Orixás, dos monarcas africanos, e duma forma régia de estar na vida. O balanço de suas vestes suaves num andar régio descalço entre o povo calçado, é uma marca de elegância e posteridade, é a presença eterna do bailado africano dos reis e raínhas Yorubás, Jejes e Bantus, nos rostos heréticos dos sacerdotes e sacerdotisas, que trazem nas veias o sangue verde dos Obás e Ayabas, da eterna terra do sol poente, onde para além do qual nada existe e tudo é saudade e mentira.

O «povo-de-santo» é mais do que a comunidade das Roças de Candomblé, é todo aquele indivíduo que por bem eleva o nome dos Orixás.

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