Candomblé e Capoeira: o canto

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Saber as cantigas de capoeira e de candomblé é até fácil, difícil é saber cantá-las

O canto ocupa um lugar importante na capoeira e no candomblé que vai para além do lado estético da música. O uso da voz nas culturas africanas tem um sentido religioso, porquanto a palavra tem um caráter de ação, de memória e de ultrapassar as barreiras do tempo. Em culturas de base oral, a palavra é a lei, a tradição, a ação.

Nesse sentido, as cantigas são um ativo importante quer na religião quer na luta-dança. A arte de cantar não está veiculada apenas às qualidades vocais, em bom rigor pouco tem a ver com esse lado técnico/natural. O segredo de cantar candomblé e capoeira (esta herdando como vimos anteriormente os principais elementos da religião) está na alma. A memória contida nas cantigas de candomblé e capoeira, o lado evocativo e louvativo, presta-se a uma profundidade que mistura lamento e esperança, amor, devoção e veneração.

Capoeira e Candomblé

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A identidade afro-brasileira é amplamente marcada pela sonoridade, pelo uso do corpo, quer como templo à experiência religiosa quer como mecanismo de performance artística, e pelo valor da palavra pela qual se veiculam os conhecimentos e as memórias.

Nesse sentido, capoeira e candomblé entrecruzam-se nos seus domínios de ação, na história e na memória. A linguagem própria dos tambores-atabaques, do agogô, do berimbau ou pandeiro, que através da sonoridade veiculam axé(àse), a energia sagrada, memória e mitos, espelha bem a presença da religiosidade africana fora dos palcos do candomblé.

A história da capoeira e do candomblé é uma história de irmandade. Não é possível entender a capoeira sem pensar no candomblé. Apesar de se tratar de uma forma de defesa camuflada numa dança, a capoeira utiliza-se da identidade africana constante à religião. A cadência rítmica dos instrumentos musicais que define a forma da dança é uma regra quer na capoeira quer no candomblé. As próprias modalidades de toque, com um repicado num dos atabaques (chamado de rum no candomblé) espelha bem a interpenetração religiosa afro-brasileira na capoeira. A forma de cantar, que entende uma simbólica da memória e da força da palavra, é também um continnum entre ambos os universos.

Referências aos deuses africanos, aos espíritos dos caboclos e boiadeiros nas rodas de capoeira marcam bem a presença da religiosidade do candomblé nesta arte de luta. A própria modalidade da roda – presente também no samba tradicional – espelha o sentido africano da circularidade do tempo.

Isto significa, então, que apesar da capoeira não obrigar a um vínculo a determinada religião, a verdade é que a capoeira é melhor entendida, nas suas dimensões cosmogónicas, éticas, e performativas em estreita ligação ao candomblé, permitindo ao capoeirista encontrar uma linha de continuidade e um aprofundamento espiritual que está na base da própria forma de estar na capoeira.

Alternativa Religiosa, Candomblé

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(…) O vínculo estreito do povo-de-santo com a natureza, e o estreito vínculo destes com as divindades, fazem do candomblé uma religião imanente, longe das abstrações metafísicas das religiões transcendentais. (…) a religião comunitária do candomblé representa uma alternativa viável, representa uma volta simbólica à natureza, representa uma relação íntima e corporal com os “deuses” (orixás), representam uma vivência coletiva, em sociedade, uma potencialização da sexualidade humana e a valorização do feminino num mundo predominantemente masculino. Assim, esses elementos estruturantes do candomblé apontam respostas concretas para a crise dos modelos ocidentais.

# Eduardo David de Oliveira in “Cosmovisão Africana no Brasil”, p. 98

Islão e Escravidão

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Antes da invasão islâmica havia a escravização dos africanos abaixo do Saara, mas a escravização era diminuta. Com a invasão árabe este processo se intensifica e ganha uma justificativa ideológica: a conversão dos pagãos ao islamismo. (…) O “escravo” se integrava ao clã, família ou cidade-estado. (…) Ele é incorporado dentro deste sistema. Ele não é nadificado na valorização de sua existência. Ele não é transformado em mercadoria ou instrumentalizado para aumentar o acúmulo de capital. Há, inclusive, o caso de um “escravo” que chegou a Rei em uma das monarquias africanas.

# Eduardo David de Oliveira in “Cosmovisão Africana no Brasil”, p. 27

A possessão pela divindade

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Diversamente do que acontece nos demais cultos e religiões existentes no Brasil, a divindade se apossa do crente, nos cultos negros, servindo-se dela como instrumento para a sua comunicação com os mortais. A possessão também se dá no espiritismo e na pajelança, mas em condições diferentes: no espiritismo são os mortos, e não as divindades, que se incorporam nos crentes; na pajelança, embora sejam as divindades dos rios e das florestas que se apresentam, somente o pajé, e não os crentes em geral, é possuído por elas. Assim, não é o fenômeno da possessão, por si mesmo, que caracteriza os cultos de origem africana, mas a circunstãncia de ser a divindade o agente da possessão. Essa a característica principal desses cultos.

# Edison Carneiro, Os Candomblés da Bahia